quinta-feira, 15 de fevereiro

Eu acho, ahã, eu acho

Toda a inquietação vem do fato único e primordial de os brasileiros sermos irrevogável e essencialmente bocós. Eu, você, eles, todos. É, eu também gostaria que não fosse assim, mas depois de 25 anos exercendo o papel de brasileira e bocó, acho que tenho autoridade, como qualquer brasileiro acha, pra fazer esse tipo de diagnóstico.

Somos seres que gostam de discutir projetos sabendo que nunca serão executados, reclamamos dos nossos representantes, achamos que parlamentares de gumex são seres endêmicos do cerrado que simplesmente brotam, botamos a culpa nos patrícios pelos males que nos afligem, pensamos que nossos compatriotas são retardados (e são), mas continuamos discutindo, reclamando, botando, achando e pensando, porque sim.

Há bocós de vários níveis e tendências, já que nosso país quentinho também sabe ser plural, então há os que se empenham em discussões estéreis, há os que se dizem fartos delas, há os que nem querem entrar nem sair, tanto faz.

Bocó, já pensei que se o país todo, em uníssono e em trajes apropriados, assumisse a condição de bocó, as coisas poderiam melhorar. Mas não se trata disso. Nunca deixaremos de ser bocós, porque é o nosso etos. É até mais confortável assim, sem a obrigação de sair da lama, porque nossos espíritos bocós podem se esticar e ficar mais um pouquinho. Eu gosto de ficar mais um pouquinho.

Não há contradição possível. Nenhum brasileiro pode dizer que lhe faltou a bocozice, porque é mentira. Eu sou bocó, você é bocó, eles são bocós, todos somos bocós. Ser brasileiro é carregar uma cruz numa mão, botar a outra no guidom da bicicleta barraforte e sair gritando na rua. É impossível escapar. Olha que eu tento. Olha que eu falo poxa poderia ser mais legal esse lugar. Mas não tem jeito. Um vacilo e lá estou eu com a cruz, a bici e o grito.

Pra ilustrar a epifania, coloco uma piada que a mim me foi contada pelo meu grande amigo migo, também bocó, atribuída a Slavoj Zizek, que, embora não seja brasileiro, compartilha conosco a alma de bocó. Mas a piada é ilustrativa.

tinha um turista no balcao de um bar em budapeste sei lá onde e ele tava tomando uisque e de repente surgiu um macaco correndo e molhou as bolas no uisque dele
ele ficou estarrecido claro mas o macaco veio correndo de novo e molhou de novo o saco no uisque dele
o turista ficou puto e viu um cigano tocando violino e cantando ele foi até o cigano e perguntou
'vc conhece esse macaco q molha o saco no meu uisque?'
o cigano começou a cantar 'esse macaco q molha o saco no meu uisque lá lá lá'

E você pode sair do Brasil, mas o Brasil não sairá de você. Isso aqui é o verdadeiro "Lost". É por isso que eu me fio no Pauderney.

mãe menininha do penhoar às 23:02
Comments

O cigano era Ary Barroso em louvor à brasilidade:

"Oh,
esse macaco q molha o saco no meu uísque
aonde eu mato a minha sede
nas noites claras do luar"

Posted by: Merc at fevereiro 20, 2007 8:26 PM

Se o acre fosse independente, e mantesse a lingua-cultura (sic), ele estaria melhor ou pior que o Brasil?

Posted by: caiocito at fevereiro 19, 2007 4:32 PM

"esse macaco q molha o saco no meu uísque lá lá lá"

Haha, tewtally. ^^

Posted by: Jules at fevereiro 16, 2007 1:51 PM

Ahã, eu também acho. Gostei.

Posted by: isabella maddi at fevereiro 16, 2007 2:16 AM

tosk
:O)

Posted by: nibelunga do cabelo duro at fevereiro 16, 2007 1:20 AM

Vamos inventar uma nova língua, colonizar a amazônia, vamos nos reproduzir só entre nós, e o boto cor-de-rosa será caçado em defesa da família e dos bons costumes, desmataremos tudo, mataremos os índios remanescentes, nao permiremos populações ribeirinhas, expulsaremos o pessoal do projeto Rondon, iniciaremos uma guerra de secessão e, anarco-capitalistas, privatizaremos cada árvore, cada trilha e o Uirapuru. Construiremos shopping centers flutuantes no rio Amazônia, transforemos a pororoca em uma piscina com ondas japanese style. Precisaremos de judeus, muitos judes, tantos quantos há em Nova York, e, para convencê-los terras, muitas terras. Fazer churrasco de onça pintada. Arranha-céus muito acima da copa das árvores. Tudo isso lindo. Vamos sonhar juntos. Um gigantesco muro de Berlin nos protegeria dos brasileiros excluídos, excluídos por serem brasileiros demais. Como nos castelos medievais durante a peste negra, deixaremos os pestilentos do lado de fora.

Posted by: Marcelo Rota at fevereiro 15, 2007 11:40 PM
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