domingo, 1 de abril

Relato: tubarão-martelo e a arte de sorrir cada vez que o mundo diz... naum

A praia é um universo fascinante, dentre muitos motivos, porque reúne homens e bichos e não --nunca-- os iguala. Não se trata daquela bobagem sobre uma suposta democracia na praia, origem e fim da equalização de pobres e ricos, uma teoria que se não é furada já não tem validade há muito. É outra bobagem. A praia abriga desde nervosos tatuís a violentos bichos geográficos. Tartarugas-marinhas, águas-vivas, estrelas-do-mar, pepinos-do-mar, ouriços-do-mar e tantos outros animais com nomes compostos do mar. Gatos e cachorros costumam ser preteridos em praias já tomadas por humanos. Camarõezinhos chegam nos espetos. Peixes, de todas as maneiras.

Já abracei pingüim e bolinei pepinos-do-mar e estrelas-do-mar, mas nunca havia tido contato físico com um tubarão. Travei conhecimento com um dos mais populares tubarões que há. Tomado por um snorkel, um catito filhote de tubarão-martelo apareceu nas águas rasas onde eu estava.

Ainda como snorkel, a barbatana do tubarão-martelo serpenteava indefinidamente. Uma coisa preta se mexia e parecia pouco a pouco mais próxima. "Olha, uma coisa ali", minha amiga me avisou. Olhei pros lados e vi mais umas três ou quatro pessoas em montinhos também tomadas pela visão da coisa estranha. Chegamos mais perto, o visitante, também. "É um tubarão" e "é snorkel", "q", "olha", "psshhh", tinha até quem quisesse ouvir o tuba. Ele não quis se pronunciar, foi chegando mais perto. Biquínis se moviam, homens de meia-idade interrompiam o namoro subaquático, gente foi buscar câmera e pé-de-pato. Ele estava chegando.

Do lado humano, uns corriam, outros se aproximavam. Presa pela indecisão nas horas mais importantes, eu tentava aproveitar um pouco dos dois mundos, mas pendi gloriosamente pro lado dos anfitriões do tubarão. Poucos, mas simpáticos, oferecemos a ele um tour pelo mundo humano que provavelmente o coitado preferia não conhecer: estava ali por ter errado o caminho de casa. Ou por querer um lugar tranqüilo pra morrer, apesar da pouca idade. Ele tinha dois ferimentos na barriga, talvez causados por redes de pesca ou algum tipo de máquina marinha.

O filhote do tubarão-martelo é um injustiçado. Tomado por fera, traz consigo a fama de predador. Pequeno, é acessível aos cuzões que não se atracariam com ele em tamanho G. (Bom, eu estava no grupo dos cuzões, mas juro que foi por acaso. Não sei se existem cuzões intencionais, provavelmente sim, dada a fartura de tipos; ocorre, porém, que o tubarão pequeno passou por um monte de gente estranha aparentemente tentando chegar à praia.) Machucado, o turabão-martelo júnior virou mico de circo.

Quando passou por mim, o tubarãozinho não parou (sentimento de rejeição). Encostei nele e fui acompanhar seu trajeto. A essa altura, ele já havia sido seguro pelo rabo por uma ou duas pessoas. Se eu fosse tubarão, já estaria realmente furibunda. Mas ele parecia até OK. Foi então que veio o bonitão da praia. O bonitão é sempre um tipo meio feio, meio velho, meio careca e meio grisalho que, vermelho de sol e com seu rolex à prova d'água, surge no mar como se estivesse dirigindo um mistubishi. O ruim desses tipos é que, se não têm uma mulher zelosa ou o tino gay, acabam saindo de casa com uma sunga branca frouxa na bunda.

Com esse perfil, não é difícil imaginar que o sunga-frouxa foi voluntário a levar o tubarão pra casa. Queria comê-lo. Já tinha levado o bicho pelo rabo, fora d'água, ainda vivo. Sou mais tímida que filhote de robalo, mas resolvi estragar o churrasco do sunga-frouxa. Umas crianças ajudaram e começaram : "Solta elê, solta elê", e o babaca finalmente concordou que não sairia naquele domingo a sua foto de pescador valente que segura orgulhoso o tuba-martelo. Se tivesse colhões, sairia pra pescar o seu. Como é mais um na multidão, surrupia o tubarão machucado. Talvez depois de exibir o peixe como se fosse seu ele recuperasse o poder de ereção, mas, nesses casos, melhor se conformar evocando o "é deus que quer assim".

Aliás, sei que é superfreudiano, mas padeço de uma crescente repulsa por homens de meia-idade, talvez motivada até pela minha neovelhice. Não é nada grave. Só que sobretudo ao ver cenas de atividades parlamentares explícitas costumo imaginar com asco como é a vida daqueles homens em cativeiro, e como deve ser conviver com seus ternos e seus géis, inclusive os de cabelo e os de firmar dentadura, agüentar a conversinha mole, o exibicionismo que só acomete os que já não têm mais nada a exibir, os sorrisos de conquista, a expectativa de reverência. Daí só posso concluir que meus problemas só tendem a aumentar, né.

Bom, voltando. Depois que o tubarão foi solto pelo homem da sunga branca, um outro, com aspecto de deficiente mental, se assustou ao vê-lo (o tubarão, não o sunga, embora em qualquer um dos casos o susto fosse natural). Testosterona à flor da pele (costumam ser hipererotizados), agarrou o tubarão pelo rabo e novamente o peixe foi levado como se fosse butim. Interveio um salva-vidas, quando martelinho já preparava botes sucessivos, infelizmente sem sucesso dada sua proporção exígua.

O salva-vidas o levou pra longe, o homem que parecia mentalmente atrasado o acompanhou andando e, depois, com o olhar. Não consegui ver se o salva-vidas havia conseguido levar o tubarão-martelo pra algum lugar seguro ou se o escondeu na sunga pra jantar quando voltasse pra casa. Fui embora. Diminuída por estar entre os cuzões, fiquei contente como eles por ter, num domingo de sol, conhecido o tubarão-martelo.
(Viúva Porcina: "Naquele dia, conheci os homens e o tubarão-martelo".)

mãe menininha do penhoar às 02:36
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