quinta-feira, 19 de abril

Média-metragem

Grande filme. Vou resenhá-lo. Olha só como começa a minha resenha, hein.

Épica, lírica e dramática? É melhor poupar Aristóteles, guardar Horácio. Um jogador de Super Mario Bros. fez melhor e perpassou os gêneros literários com um castelo sem chão, cogumelos e tartarugas que voam. O épico do videogame, assim como os de Homero, começa in medias res. A princesa Toadstool foi seqüestrada por Bowser e cabe ao encanador Mario salvá-la --a ação parte dos movimentos de Mario já dentro do mundo do demônio. O jogo filmado e narrado tampouco foge à regra homérica da invocação da musa: a invocação feita pelo narrador garante a Mario preliminarmente que ele vai poder salvar a princesa e comê-la.

A primeira derrota, porém, é a constatação de que não há chão. O personagem cai direto em um abismo, sem saber havê-lo, enquanto o narrador inicia sua ladainha de revolta e fé. O caráter bélico do poema oral é explicitado pelos inimigos visíveis e invisíveis que aparecem ao longo do jogo. "Koopa, você é um boqueteiro", por exemplo, mostra o conflito que se estabelece entre o narrador e Mario (como uma única força) e o mundo 1-1, que o encanador deve atravessar. O narrador, além de gritar e se lamentar, compara a referências contemporâneas a situação. "É um pesadelo, é pior que um livro do R.L. Stine, pior que um episódio de 'Family Guy', pior que Panic at the Disco, isso é pior que Ann Coulter."

Decepções e entusiasmo se alternam, mas, para além dos problemas pontuais para atravessar a fase, o narrador e seu herói entram em conflito. O problema se torna mais evidente no início da segunda fase. O narrador, manipulador da história e do herói, deus ex-machina --característica que aristotelicamente o coloca na berlinda--, se incomoda com o fato de aparentemente Mario não seguir os seus comandos. Mario, porém, não responde e continua a atravessar o mundo de Koopa Troopers. Por iniciativa do narrador, o encanador e ele passam a dividir as responsabilidades do jogo, acompanhados pela música que os guiará até a cova.

O poema épico dá lugar ao dia logos e faz surgir, então, o drama. Mario ganha voz e responde por seus atos. Goompas e arquitetura, os aspectos mais banais do mundo de Bowser atraem a ira do narrador. Ao contrário do herói, que durante todo o filme não consegue mais do que um cogumelo e se mantém impassível, o narrador torna-se mais e mais furioso no mundo 1-2. A fúria e o desespero impelem o narrador a também compor músicas dedicadas à situação, o que completa a volta ao mundo dos gêneros literários.

mãe menininha do penhoar às 14:29
Comments

Por uns instantes eu achei que a narração fosse do Zach Braff. Enfim.

Posted by: Rastafári at abril 21, 2007 12:03 AM
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