quarta-feira, 18 de julho

Dormonid na cesta básica

Carro a álcool, câncer e acidente aéreo seguem os mesmos princípios de "um dia você vai ter um". Ainda mais no Brasil, onde gasolina é cara e adulterada, atendimento hospitalar é uma espécie de escárnio e transporte aéreo, bem, tá por aí, e todo mundo analisa "o que teria causado" o novo recorde brasileiro de morte a bordo. Admiro quem consegue "não pegar avião" ou "não voar de TAM", tendo em vista o retrospecto animador da companhia, mas eu particularmente não posso incluir esses na curta lista dos meus luxos particulares. Até porque a questão não é essa. Então estou aqui na torcida, ainda aliviada por ter aterrissado em Congonhas um dia antes do acidente.

O que me parece pior é a insistência em chamarem a putaria de "caos aéreo". "Caos" é uma palavra que me deixa um pouco receosa, porque quase sempre é usada como um balaio onde se mete qualquer coisa. "Ai, o caos." Aéreo? Não é aéreo, amigos, o "caos" é tão terrestre que tem um avião enfiado do outro lado da Washington Luís há quase 24 horas.

Não dá pra confiar em nada no Brasil que não dependa apenas de pedra, mandioca, jenipapo, cipó e um pouquinho de sacanagem. Vocês viram o Zé Gotinha. Vocês viram a ministra do Turismo. Vocês viram as inscrições nos banheiros da USP. Vocês viram o votecristo.com.br. Vocês viram as pessoas pulando diante das câmeras "do Pan", gritando "sou brasileiro com muito orgulho com muito amor". Viram o presidente coitado-subsidiado, organicamente eleito, cometendo metáforas, perdigotos e lágrimas.

As tentativas de civilização aqui fracassaram, todo mundo sabe, ainda que tacitamente ou em negação. O único problema, no caso de decidirmos pela saída lógica da vida selvagem, é que, não sendo índios juramentados, não teríamos terra grátis nem relógio nem calção adidas azul nem mesada da Vale do Rio Doce. E não poderíamos abrir mão de direitos obrigatórios como o voto, o que tornaria nossa tentativa naturalista contrasensual.

O que fazer?

mãe menininha do penhoar às 10:37
Comments

Você pousou e eu decolei.

E você está certa: embora o impulso irresistível (era diário, agora anda mais para *horário*) seja o de ir embora, não tem mesmo saída. "Carma do capeta". ;-*

Posted by: Cam Seslaf at julho 23, 2007 4:53 PM

Olá, Sra. Nibelunga do Cabelo Duro venho aqui invadir a sua caixa de comentários com toda a cara de pau para fazer propaganda descarada de um blog que estou iniciando. Se for do seu agrado, volte lá sempre que tiver tempo para jogar fora. Abraço, parabéns pelo blog e pelo último post. Faço lá uma homenagem ao falecido ACM Endereço: www.vislumbreselampejos@blogspot.com.

Posted by: Viníciud de Oliveira at julho 21, 2007 3:55 PM

q

Posted by: nibelunga do cabelo duro at julho 20, 2007 11:43 AM

Voltei para os EUA, minha terra natal, em 1985. Não via perspectivas de um mestrado em lingüística sem frosô francês, Ferdinand De Saussure e mais do mesmo. Era professora de inglês e mal dava conta do aluguel. Homem, parece que brasileiros gostam de gostosinhas burras. Não cheguei a transar com todos é só impressão.
Aqui não temos amigos. Encontrei meu marido, importei minha mãe, tive filho, compramos casa. No Brasil perco amigos de há décadas que fossilizaram. Não gostam da minha identidade de blogeira.
Bloguei sobre o desastre TAMto Faz. O problema reside no status do Brasil. A vida vale menos. É descartável. Não é Lula, é o imperialismo. Mesmo aqui a vida vale menos, vide os jovens indo pra guerra. Lev Davidovitch Bronstein tinha toda razão ao endossar a Rosa: socialismo ou barbárie. Gostei do seu blog, espero voltar .

Posted by: tina oiticica harris at julho 19, 2007 10:44 PM

Bunch o' cowards.

Posted by: Adriano at julho 18, 2007 11:59 PM

Sair fora de navio. Bjs, Márcio.

Posted by: Márcio Guilherme at julho 18, 2007 11:32 PM

O que fazer? A Ministra já respondeu, oras!

E sim: credo!

Posted by: Cláudio at julho 18, 2007 8:52 PM

Credo, né.

Posted by: nibelunga do cabelo duro at julho 18, 2007 7:02 PM

Pois é, Jules e Mauro, o pior é isso, não tem mais saída.

Random, eu nem sei se adianta simplesmente ir embora. É claro que imediatamente pelo menos esse tipo de problema pode deixar de existir, mas tenho pra mim que ser brasileiro é carregar um carma de capeta que só com muita reencarnação pode ser sanado.

Posted by: nibelunga do cabelo duro at julho 18, 2007 6:59 PM

Nibs, antes a melhor saída era o aeroporto. Agora virou balsa e bóia de trator.

Posted by: mauro at julho 18, 2007 3:57 PM

O que fazer? Ir embora desse lixo, dar as costas pra essa miséria institucional que nos cerca deixando essa escória que pretensamente nos governa e rouba falando sozinha enquanto buscamos por um destino que acolha nossos sonhos e acalente nossa frustração. Nojo profundo, asco, ânsia. Não sendo possível... bem, não sendo possível, resta-nos a alienação profunda e a anestesia consumista enquanto o cotidiano narcotizante toma de nós o patrimônio que nos resta: nosso tempo, nossa juventude e nossas oportunidades. Hugs, Ramdom Reader.

Posted by: Random Reader at julho 18, 2007 2:35 PM

Eu nem penso nisso porque, se eu for pensar, morro. De raiva. Sabe fúria incontrolável uterina de mulher que comete crime na TPM? Então.

E pensar que a saída era o aeroporto... *sigh*

Posted by: Jules at julho 18, 2007 1:07 PM

"(...) ainda aliviada por ter aterrissado em Congonhas um dia antes do acidente."

MEO DEOS.

*dá um beijo na sua testa*

Posted by: Jules at julho 18, 2007 11:42 AM
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