quarta-feira, 1 de agosto

Um canto de afoxé para o bloco do ilê

[É um disparate como tantos outros; acho que o fato de pagarmos quase 1/3 dos nossos salários e mais tanto dinheiro pra simplesmente sermos brasileiros faz com que tenhamos o direito de dar opiniões compulsivamente.]

Interrompo meu árduo labor acadêmico pensando em João Dória Jr. O que há de errado com João Dória Jr.? Pessoalmente, não vejo nele nada pior do que no resto da humanidade. É um homem branco com gel no cabelo e um sorriso de fios de ouro que lembra, pelo formato, pela artificialidade e pelo dinheiro que quer denotar, a arcada aberta e repuxada de outra figura do mesmo naipe, Chiquinho Scarpa. Ele tem um programa de entrevistas muito ruim. Eu não gostaria de encontrar o João Dória Jr. na rua, mas, até aí, tanto se nos dá a todos, já que ele provavelmente não encontraria prazer maior em me ver. Mas de repente as coisas se colocam assim: o que vier das mãos bem-cuidadas de João Dória Jr. é MAU.

Gente, vamos com calma.

Tudo é MAU no Brasil, todos sabemos disso. O motorista de ônibus passando ali embaixo não é necessariamente melhor nem pior do que JDJ só porque tem que pegar no pesado vestindo uma feia camisa azul, enquanto o empresário pode escolher em seu closet de muitos metros quadrados qual será a sua indumentária. Se um peca por ter dinheiro, o outro peca por cuspir na rua. Essa oposição entre "ricos" e "pobres" só serve ao gosto do discurso do parvenu Luiz Inácio Lula da Silva, que joga dos dois lados. Se eu tivesse que eleger o pior aspecto do Brasil, acho que deixaria as ruas cuspidas, a violência, a desigualdade social e a nossa falência moral pra escolher algo que está na raiz de tudo isso: a santificação automática dos pobres e a demonização automática dos ricos.

Outro dia eu estava zapeando nos canais comunitários, meus preferidos, e parei na rede estatal que se dedica a mostrar os feitos e glórias desse que foi eleito pra nos governar. Sente.

Eu digo isso com orgulho, porque eu lembro quantas vezes disputei eleições, e a preocupação dos meus adversários era passar notinhas para a imprensa: “Pergunte ao Lula, ele não fala inglês, como é que ele vai governar? Ele não fala espanhol, como é que ele vai governar? Ele não entende francês.” Era essa a pergunta que todo dia eu tinha que responder, todo santo dia, como se alguém já tivesse perguntado se o Bill Clinton está preocupado em aprender português, como se alguém já tivesse perguntado se alguém está preocupado em aprender a minha língua para vir conversar comigo. A língua é um valor da Pátria, e nós temos que aprender a falar corretamente a nossa língua. Somente aqueles que são colonizados intelectualmente, somente aqueles é que chegam no exterior pensando em fazer discurso em estrangeiro. Quando você vê, na televisão, alguém num fórum internacional, um brasileiro falando a língua do outro, primeiro, é um metido à besta. Tem gente que acha que é tão elegante que chega no aeroporto, já começa a tentar falar inglês com a moça do balcão, já achando que está lá fora. Do dia 26 de julho, na "cerimônia de lançamento do PAC Saneamento e Urbanização no estado da Paraíba".

O pior é que fala como se tivesse ao menos aprendido corretamente a "nossa língua". (Como se ninguém soubesse que pra ele isso não é importante. Que os fonemas de sua língua são notas de R$ 50 e R$ 100. Ou de DÓLA.) E se for questionado a respeito disso, ele ou seus súditos vão vir com a glossolalia de sempre, evocando cramulhões da sociolingüística pra explicar por que um senhor que já tem 30 anos de notoriedade e dinheirinho pingando tranqüilo no caixa jamais se preocupou em deixar de ser intelectualmente remelento. Talvez porque o personagem sirva bem à sua política de governo, calcada no "não sei de nada".

Só mais um pedaço, prometo:

Essas coisas é que nós precisamos pensar, porque enquanto a classe dirigente fica brigando pequeno, fica com mesquinharia, o povo fica sofrendo, o povo fica na expectativa de que apareça um milagroso para salvá-lo, e não tem.

"A classe dirigente"? Quem é a classe dirigente que fica com mesquinharia? Quem é o topo da classe dirigente? Na melhor das hipóteses, o presidente demonstra ter pelo menos algum grave problema psiquiátrico que não o deixa entender a realidade. OI ESTOL AQUI SOU PREZIDENTE MAIS ACHO Q SOU O TONHO DA LUA. Na hipótese mais real, sabemos todos do que se trata. E "o milagroso para salvá-lo" não apareceu? Ué.

Por isso não acho mau o fato de alguém, mesmo que o faça por não conseguir pagar um salário ainda mais mínimo aos seus empregados, montar um movimento contra isso que sabemos todos do que se trata, mas que ninguém quer nomear. Entendo que os colunistas de jornal teimem em "desqualificar" o protesto, até porque não há protesto que não possa ser desqualificado por qualquer razão. Mas alegar que é menos "legítimo" porque vem do empresariado paulista, que se beneficia disso ou daquilo? Chupa meu pau, né. As manifestações existem basicamente por conta de "perda de privilégios", sejam da Fiesp, da OAB, da CUT, da USP, do PT, os reis da bandeirinha. Junte-se a isso o saldo de mortos desse governo e nem é preciso um janotinha pra capitanear nada. Todo mundo "cansou". Só não se cansa quem pode ficar em casa recebendo Bolsa Esmola sem pagar imposto. Ou quem é pago pelo Estado pra fazer festa em cima da desgraça dos outros. Ou quem, como eu, é jornalista e não desiste nunca.

mãe menininha do penhoar às 11:01
Comments

onde eu assino?!!?

Posted by: Max at setembro 20, 2007 12:28 PM

Garota, sou viciada no que tu escreves. Sério.

(um 'tu escreves' para lembrar a prenda do minuano uivante dos pagos aqui do sul, vivente. quase um wutering heigts.)

Piçôa pensa: "você (ou tu) tem mais dinhêro do que eu, isso é injustiça social, passa já pra cá, e, ó, eu não tô robano, eu tô pidino". Piçôa, vamos fazer assim: eu fico sentadinha ao sol pensando como o mundo é injusto enquanto você se acaba de trabalhar aproximadamente dez horas por dia e depois vai para um curso de pós-graduação de quatro horas diárias e um outro que toma seu final de semana inteiro, de manhã e de tarde, sábado e domingo. Da meia-noite às seis, você tenta enfiar na cachola todos os mil textos que querem que você leia, pois professor de pós pensa que ninguém trabalha, só ele. Faça isso por um mês. Passado esse mês, voltamos a conversar, tá bom?

Posted by: belly at agosto 7, 2007 12:33 PM

Eu ia dizer excelente, perfeito.
Mas já foi dito.

Posted by: Regina at agosto 2, 2007 9:10 PM

Excelente, excelente.

Posted by: Christian at agosto 2, 2007 12:00 PM

Perfeito, querida. Estava querendo escrever algo sobre o assunto, mas não sairá -se sair- melhor que isso. :) Beijo grande.

Posted by: Ruy at agosto 1, 2007 4:40 PM

Nibenibe, TI AMU.

Também não entendo o nhenhenhé pra cima do seboso do JDJ. Esse povinho que acha que quem tem beêmedábliu (ou até quem tem Mercedes classe A) é DO MAL e não tem direito a reclamar é muito nojento. Ptu-ptu.

Posted by: Jules at agosto 1, 2007 12:00 PM
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